Pescaria de barco

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“Não o choreis. Era na verdade lindo, a correr e saltar na água azul, todo verde e dourado e azul; lutou pela vida, foi bravo e morreu. Não o choreis: era um belo animal cruel e, além disso, guloso. Quando foi aberto o seu buxo, havia dentro dele várias sardinhas e vários baiacus, todos abocanhados inteiros, alguns evidentemente há bem pouco tempo. Ele estava, portanto, de barriga cheia, e com uma grande parte da digestão por fazer; se engoliu nossa modesta sardinha não foi por fome e sim por mania predatória. Como somos democráticos e defensores dos fracos e pequenos, choramos as sardinhas e baiacus. Quanto ao dourado o dividimos em postas e o almoçamos tranquilamente, ao som de um vinho branco Santa Rita, devidamente chileno. Após o que deitei-me, na minha branca e cearense rede, cuja varanda é bordada de leões, e cochilei cerca de meia hora, a sonhar vagamente com minha amada e com o mar.”

(Pescaria de barco, Rubem Braga)

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Fotos: Carlos Emerson Jr. (Colônia de Pescadores Z-13, Posto 6, Copacabana, Rio)

A morte do dançarino

Lucas Landau/Reuters
Foto: Lucas Landau (Reuters)

Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? E quem atirou primeiro, os traficantes ou a polícia? Parece estranho e mal colocado mas, diante de tudo o que tem acontecido aqui no Rio, não dá mais para confiar no que as autoridades estaduais de segurança e a mídia global afirmam. Sua versão dos fatos é sempre falaciosa e imbecilizante, como se estivem se dirigindo a um bando de idiotas.

Podemos até parecer, mas garanto que não tem nenhum idiota do lado de cá. As recentes manifestações de parte da população “assistida” pelas UPPs indicam que cansamos de ouvir desculpas esfarrapadas e sem nenhum sentido para explicar assassinatos, desaparecimentos e abusos de todas as espécies.

Acusações de vandalismo não colam mais na classe média, senhores. Na semana passada, um artigo publicado no jornal espanhol El País, trouxe dados estarrecedores da “pacificação” do Rio:

“A ONG Rio de Paz resumiu as estatísticas publicadas durante os últimos oito anos (2007-2014) pelo Instituto de Segurança Pública (ISP) do Rio do Janeiro. E os números são alarmantes: no Estado de Rio, foram registados neste período 35.879 homicídios dolosos, 285 lesões corporais seguidas de morte, 1.169 roubos seguidos de morte, 5.677 mortes derivadas de intervenções policiais, 155 policiais militares e civis mortos em ato de serviço. Total: 43.165 falecidos. Ou seja, mais de 500 mortes por mês provocadas por uma violência desmedida. Esses números não levam em conta os mais de 38.000 desaparecidos nem as mais de 31.000 tentativas de homicídio.”

Operações policiais em áreas que, em tese, estão sob o controle do estado, não deveriam virar operações militares, a não ser que esse controle seja apenas “para inglês ver”, como se dizia antigamente. A UPP do Pavão-Pavãozinho, inaugurada em 23 de dezembro de 2009, já teve cinco anos para colocar na cadeia os traficantes remanescentes e agir apenas preventivamente.

Por sua vez, o governo do estado e a prefeitura carioca tiveram cinco anos para implantar saneamento básico, construir postos de saúde, urbanizar as ruas e vielas, normalizar o fornecimento de luz, água e telefone, providenciar transporte público e, o mais importante, regularizar a posse dos terrenos e casas da região. Alguma coisa foi feita? Faz-me rir, para as autoridades, a UPP se encerra quando o Bope entrega a comunidade para os policiais militares regulares, bate continência e dá meia volta volver.

A morte (ou execução com tortura) do dançarino é mais um entre tantos casos que tem aparecido apenas porque as comunidades não mais se calam diante dessas violências. O episódio (se é que dá para chamar assim uma barbaridade) da auxiliar de serviços gerais Cláudia Silva Ferreira, baleada em uma operação desastrada numa favela da zona norte e arrastada por 250 metros por uma viatura da PM que deveria socorrê-la, parecia o fundo do poço.

Não foi.

E fica bem evidente que esse pesadelo não tem fim.

Nós em 2214

traffic-jam

Ruy Castro
Folha de SP

Um dia –digamos, em 2214–, quando a história falar de nossa época, páginas importantes serão dedicadas ao automóvel. “Era um veículo impraticável, dispendioso, poluidor e assassino”, elas dirão. “Apesar dessas evidentes desvantagens, alguns países insistiam em fabricá-lo, em vez de investir em meios de transporte mais razoáveis. Ou planejar as cidades de modo a que as pessoas pudessem ir a pé, ou de calçada rolante, para seu trabalho ou lazer.

“Os governos da Eurásia e dos Estados Unidos do Pacífico-Atlântico, ao se convencer do anacronismo do automóvel, descontinuaram sua fabricação. Outros, em busca de índices que lhes fossem eleitoralmente favoráveis, fizeram do automóvel o eixo de sua economia, privilegiando-o com alíquotas camaradas.

“Num país sempre desastrado, o Brasiguai, os mandantes continuaram a estuprar as cidades com viadutos e túneis e a derrubar casas para abrir estacionamentos. Mas não havia espaço que chegasse para tanto carro. Em certo momento do século 21, aconteceu o que ninguém julgava possível: o Rio ultrapassou São Paulo em matéria de engarrafamentos. E isso foi só o começo.

“Em 2050, um congestionamento-monstro estendeu-se do Guaporé às Missões e de Puerto Sastre ao Leblon. Foi um nó nacional. Parou tudo. As cidades ficaram isoladas e sem abastecimento. As pessoas, infernizadas por uma vida no trânsito, enlouqueceram. Em massa, começaram a deixar os volantes para saquear o comércio, destruir os bancos e se esganar entre si. A polícia aderiu ao levante. Os estoques acabaram. O governo ruiu.

“Os países avançados, cansados de tanto avisar, nem se mexeram para ajudar. Acharam bem feito. Com isso, o Brasiguai regrediu a 1500, à economia primária, de comer o que há em volta. Mas seu povo já está cansado de comer pneus”.

O tal legado

Monstrengo
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No início de abril, postei nas redes sociais uma foto dessa “instalação” acima, que está sendo diligentemente montada no início da Avenida Atlântica, em Copacabana, aqui no Rio. Indagava se alguém sabia para que servia e porque não havia uma placa sequer indicando o responsável pela “obra”, como manda a legislação.

Os amigos não perderam tempo e algumas teorias divertidas foram aventadas, tais como a construção de uma nova refinaria da Petrobrás ou um presídio seis estrelas para os corruptos de Brasília. Para tentar resolver a charada, já que a imprensa carioca parece que não está ligando a mínima, resolvi correr atrás e, bingo, resolvi parte do mistério!

Ali, no alto da histórica avenida, cobrindo a vista dos infelizes que reservaram quartos no Sofitel Palace Hotel a preço de ouro, vai funcionar uma espécie de central de mídia, onde os jornalistas darão seus boletins ou farão seus programas, tendo ao fundo a Praia de Copacabana e o Pão de Açúcar.

Que lindo, não é mesmo?

Monstrengo por trás
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Aí surgiu a dúvida, que televisões serão essas? Bom, já ouvi palpites que vão da Globo até a surpreendente e não menos improvável Al Jazeera mas, observando com calma a “instalação”, reparei que o único acesso aos andares superiores será através de escadas, o que dificultaria a troca dos equipamentos pesados durante o rodízio. Fica a sensação de que apenas um canal vai utilizar essa “facilidade”. E aí, meus queridos, ganha um ovo de Páscoa quem adivinhar!

Tudo isso seria evitado se a Prefeitura do Rio, a Fifa ou o Governo do Estado (a essa altura da bagunça ninguém mais sabe quem é o responsável) fossem transparentes. Aí tenho que concordar inteiramente com um dos comentários da rede social: “não tem placa porque é pra copa, se disserem q é pra copa amanhã estará no chão…”

Com a palavra o MP e demais órgãos de fiscalização do trabalho: essa obra é legal? É segura? Para nós, moradores do bairro, infelizmente não passa de um monstrengo de extremo mau gosto, atrapalhando a vida de moradores, turistas e comerciantes.

Deve ser o tal legado. De merda.

Cem anos de solidão

gabo

“A despedida da solidão. Sentiu que a partir daquela noite, jamais conseguiria ficar sozinho…ou a partir daquela noite, nunca mais deixou de viver na solidão, absoluta, avassaladora, lutando, sempre, para continuar a ser o mesmo de antes sabendo que é uma tarefa impossível, mas que tem de ser tentada”. (Cem anos de solidão, 1967)

Obrigado, Gabriel Garcia Márquez.

Caricatura: Suso Sanmartin